Desembargadores que participaram de julgamento em que vítima foi chamada de ‘sonsa' em caso de assédio responderão a processo disciplinar

Relator citou normas do CNJ que determinam adoção da perspectiva de gênero nos julgamentos. Defesa disse que vai demonstrar que falas 'se deram dentro de um conjunto necessário'.


Por Rota Araguaia em 07/11/2024 às 15:47 hs

Desembargadores que participaram de julgamento em que vítima foi chamada de ‘sonsa' em caso de assédio responderão a processo disciplinar
Reprodução/Youtube e Reprodução/Instagram

Redação

 

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) instaurou, nesta terça-feira (5), um processo administrativo disciplinar contra os desembargadores Silvânio Divino de Alvarenga e Jeová Sardinha, do Tribunal de Justiça de Goiás. A medida foi tomada após declarações dos magistrados durante o julgamento de um caso de assédio sexual e moral movido contra o pastor Davi Passamani, fundador da igreja A Casa, em que os magistrados descredibilizaram a vítima.

Durante a sessão de julgamento na 6ª Câmara Cível do TJ-GO, o desembargador Silvânio Alvarenga chegou a se referir à vítima como “sonsa”, enquanto Jeová Sardinha comentou que casos de assédio e racismo haviam se tornado “modismo”. Segundo o CNJ, a conduta dos desembargadores será investigada para verificar possíveis violações à Constituição e às normas que regem a adoção de perspectiva de gênero em julgamentos no Judiciário.

O relator do caso no CNJ, o corregedor Mauro Campbell Marques, enfatizou que o uso de termos como “sonsa” não é apropriado em julgamentos e que o comentário sobre “modismo” indica desconsideração pelas lutas sociais contra assédio sexual. "O termo ‘modismo’, para além de fundamentar seu voto, denota uma desconsideração do Judiciário nacional pelas lutas sociais", afirmou o corregedor.

O advogado dos magistrados, Dyogo Crosara, afirmou que a defesa recebeu a decisão com “naturalidade” e que pretende demonstrar que as falas dos desembargadores foram realizadas dentro do contexto necessário para o julgamento, sem intenção de ofender.

O presidente do CNJ e do STF, ministro Luís Roberto Barroso, reforçou que o Conselho deve atuar para combater o machismo estrutural no Judiciário e promover a equidade de gênero.

Entenda o caso

Em março de 2020, uma jovem de 20 anos denunciou o pastor Davi Passamani por assédio sexual, alegando que ele havia feito abordagens impróprias. O caso foi registrado na Delegacia de Atendimento à Mulher de Goiânia e encaminhado ao Ministério Público, mas acabou arquivado por falta de provas. A vítima, contudo, entrou com uma ação cível por danos morais, que foi o foco da discussão entre os desembargadores.

Em dezembro de 2023, outra denúncia foi feita contra Passamani, também por importunação sexual, após ele ter enviado mensagens de cunho sexual e realizado uma chamada de vídeo indevida. A Polícia Civil investiga o caso sob sigilo.

O julgamento do processo disciplinar dos desembargadores deve trazer à tona discussões sobre condutas e protocolos que o Judiciário deve adotar para evitar que decisões sejam influenciadas por preconceitos, contribuindo para a construção de um sistema mais inclusivo e justo.



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